Santo Antônio de Lisboa

"Uma água turva e agitada não espelha a face de quem sobre ela se debruça. Se queres que a face de Cristo, que te protege, se espelhe em ti, sai do tumulto das coisas exteriores, seja tranquila a tua alma.".

Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo, mais conhecido como Antônio, nasceu em data incerta, mas tradicionalmente comemorada em 15 de agosto de 1195, na cidade de Lisboa, numa casa, assim se pensa, próxima da Sé, às portas da cidade, no local onde posteriormente se ergueu a igreja que lhe foi dedicada 1.
Fernando era filho de Martinho de Bulhões e Maria Teresa Taveira, ambos ricos fazendeiros portugueses. Seu pai Martinho era descendente do celebrado Godofredo de Bulhão, comandante da I Cruzada, e sua mãe, Maria Teresa descendia de Fruela I, rei de Astúrias, mas apesar de não ser isso comprovado por fontes fidedgnas, seria um forte relato dos ascendentes de Fernando, que pertencia a família dos Bulhões.

Conta-se que na sua infância, seu pai, Martinho de Bulhões, gostava de ir a uma fazenda que possuía nos arredores de Lisboa. Um dia, levou o filho com ele. Ocorre que insaciáveis bandos de pássaros desciam continuamente para bicar os grãos de trigo. Era necessário espantá-los para impedir grave dano à colheita. Martinho encarregou o garoto de manter longe os pequenos ladrões, para que não atrapalhasse suas plantações. O pai se foi e o pequeno Fernando permaneceu correndo de cá para lá no campo. Em pouco tempo  começou a se aborrecer com aquela ocupação. Não muito longe, uma capelinha rústica o convidava à oração. Mas o pai o mandara enxotar os passarinhos. Gritou então aos pássaros, convidando-os a segui-lo para dentro de uma sala da fazenda. Obedientes os pássaros entraram. Quando todos estavam dentro, Fernando fechou as janelas e as portas, e foi tranquilamente fazer sua visita ao Senhor. Retornando o pai veio procurá-lo. Andou pelo campo, chamando-o, mas não o encontrou. Preocupado, dirigiu-se à capela e o descobriu, todo absorto na prece. Fernando tomou o pai pelas mãos e o conduziu ao salão repleto dos vôos e dos cantos dos graciosos prisioneiros. Abriu a porta e, a um sinal seu, os pássaros, em bando, retornaram os livres caminhos do espaço, mostrando com isso seu “primeiro milagre 3.

Sua família rica e nobre providenciou para que ele fosse instruído na escola da catedral local. Aos 15 anos, ingressou na comunidade agostiniana dos Cânones Regulares da Ordem da Santa Cruz, na Abadia de São Vicente, nos arredores de Lisboa. A biblioteca de São Vicente de Fora era afamada pela sua rica coleção de manuscritos sobre as ciências naturais, em especial a medicina, o que pode explicar as constantes referências científicas em seus sermões, que depois se tornaram muito famosos em Portugal e na Itália.

Pouco tempo depois, Fernando pediu permissão para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a fim de aperfeiçoar sua formação e evitar distrações profanas, lá era constantemente visitado pelos seus familiares e amigos. Coimbra na época se destacava sendo o epicentro intelectual de Portugal, e Fernando em Coimbra conseguiu fazer seus estudos da Bíblia e aperfeiçoar sua inteligência e memória que naturalmente já eram formidáveis. No ano de 1217, Fernando entrou em contato com os primeiros missionários franciscanos que haviam chegado em Portugal e que estavam a caminho de Marrocos, onde iriam evangelizar os mouros, Mas o fato é que ao voltarem para Coimbra, os franciscanos foram martirizados, recebendo o nome de “Mártires de Marrocos”, o rei Afonso II resgatou seus corpos para serem devolvidos e enterrados como mártires na abadia de Santa Cruz, o ápice que impulsionou Fernando a seguir a vida religiosa e adotou o nome de António, em honra a Santo Antão do Deserto e começou a seguir seu caminho rumo ao martírio 2.

Por essa altura, António decidiu ir a Marrocos em viagem, mas ao chegar lá, ele foi acometido por uma grave doença, sendo persuadido a retornar. Ao voltar para Portugal, uma forte tempestade arrastou o barco para as costas da Sicília, onde encontrou antigos companheiros. Depois se deslocando da Ilha da Sicília para a cidade de Assis, onde conhece e se encontra com São Francisco de Assis e seus primeiros seguidores. Sendo designado para um eremitério em Montepaolo, na província da Romagna, ali passou cerca de quinze meses em intensas meditações e árduas disciplinas.
Um dia, em 1222, na cidade de Forlì, na ocasião de uma ordenação de frades dominicanos, surgiu um mal entendido sobre quem de fato deveria pregar, pensando todos serem um dos dominicanos, que desde sempre eram famosos por suas pregações, nem deles se puseram a púlpito e Antônio foi escalado pelo provincial dos eméritos a fazer a pregação, sendo completamente inspirado pelo Espírito Santo.
António protestou, mas foi anulado, e seu sermão causou uma impressão profunda. Não apenas sua voz rica e seu jeito atraente de ser, mas também todo o tema e substância de seu discurso e sua eloquência emocionante prenderam a atenção de seus ouvintes 2.

 “Neste lugar tenebroso, os santos brilham como as estrelas do firmamento. E como os calçados nos defendem os pés, assim os exemplos dos santos defendem as nossas almas tornando-nos capazes de esmagar as sugestões do maligno e as seduções do mundo” 4.

Pelo seu sermão, foi de imediato destinado pelo provincial à evangelização e difusão da doutrina pela Lombardia, uma região ao norte da Itália. Ele logo chamou a atenção do fundador da ordem, Francisco de Assis. Francisco tinha uma forte desconfiança do lugar dos estudos teológicos na vida de sua irmandade, temendo que isso pudesse levar ao abandono de seu compromisso com uma vida de pobreza real. Em António, no entanto, ele encontrou um espírito afim para sua visão, que também foi capaz de fornecer o ensino necessário aos jovens membros da ordem que poderiam buscar a ordenação. Em 1224, ele confiou a busca de estudos para qualquer um de seus frades aos cuidados de António, fixando-se em Bolonha, onde se dedicou ao estudo da Teologia e no seu dom da Pregação, deslocando-se depois para a França, onde ensinou nas universidades de Toulouse e Montpellier, passando também por Limoges 1.

A razão pela qual a ajuda de Santo Antônio é invocada para encontrar coisas perdidas ou roubadas é atribuída a um incidente ocorrido em Bolonha. Segundo a história, António tinha um livro de salmos que era de alguma importância para ele, pois continha as notas e comentários que ele havia feito para ensinar seus alunos. Um novato que decidiu sair levou o saltério com ele. Antes da invenção da imprensa, qualquer livro era um item de valor e teria sido difícil para um frade franciscano substituir, devido ao seu voto de pobreza. Ao perceber que estava faltando, António rezou para que fosse encontrado ou devolvido. O ladrão foi movido para devolver o livro a Antônio e retornar à ordem. Diz-se que o livro roubado foi preservado no mosteiro franciscano de Bolonha 2.

Em 1226 assistiu ao Capítulo de Arles, e em outubro do mesmo ano, depois da morte de São Francisco, ele serviu como enviado da Ordem ao papa Gregório IX, para lhes apresentar as regras.
Na corte papal, sua pregação foi aclamada como uma "jóia da Bíblia" e ele foi contratado para produzir sua coleção de sermões. O próprio Gregório IX o descreveu como a "Arca do Testamento" (Doutor Arca testamenti). E em adiante em 1227, foi movido para Romanha, servindo por 3 anos aos arredores de Pádua, onde em 1230, assistiu o translado dos restos mortais de São Francisco de Assis da Igreja de São Jorge para a nova basílica. No mesmo ano também solicitou ao Papa, para o dispensar como provincial, para que ele pudesse se reservar as meditações e orações no mosteiro de Pádua.

Santo Antônio foi pregar uma vez na cidade de Rímini, onde dominavam os hereges que resolveram não ouvi-lo em hipótese alguma. Frei Antônio subiu ao púlpito e quase todos se retiraram e fugiram. Não esmorecendo, pregou aos que tinham ficado. Saindo do retiro, foi direto às praias do Mar Adriático e, em altos brados clamou aos peixes que o ouvissem e celebrassem com louvores ao seu supremo Criador, já que os homens ingratos não queriam fazê-lo. Diante daquela voz imperiosa, apareceram logo os incontáveis habitantes das águas, e se distribuíram ordenadamente, cada qual com os de sua espécie e tamanho. Os peixes ergueram suas cabeças da água e ficaram longo tempo imóveis, a ouvi-lo 3.
Em Toulouse, António foi desafiado por um herege a provar a realidade da presença de Cristo na Eucaristia. O herege trouxe uma mula sem fome e esperou para ver sua reação quando mostrada forragem fresca, por um lado, e o sacramento, por outro. O animal idiota ignorou a forragem e curvou-se diante do sacramento.
 “Quem não pode fazer grandes coisas, faça ao menos o que estiver na medida de suas forças; certamente não ficará sem recompensa 4.
Pouco depois da Páscoa de 1231, António sentiu-se muito mal e foi diagnosticado com hidropisia, que é uma acumulação anormal no tecido celular do corpo, ele sai então de Pádua e vai para um retiro da floresta em Camposampiero com outros dois frades para uma pausa. Lá, ele morava em uma cela construída para ele sob os galhos de uma nogueira. Percebendo que a morte se aproximava, pediu para os frades o levarem de volta para Pádua, mas só conseguiu alcançar o convento das clarissas de Arcella, subúrbio de Pádua, onde enfim com 35 anos, ainda jovem, morreu no dia 13 de junho de 1231.

Depois de sua morte, vários milagres foram atestados no mundo inteiro, principalmente em Portugal e na Itália, onde ele passou todo seu ministério de evangelização. Sua fama de santidade era tamanha que foi canonizado logo no ano seguinte, em 30 de maio de 1232, pelo papa Gregório IX, sendo desde agora o processo de canonização mais rápido já precedido e conhecido da Igreja. Depois disso seus retos mortais foram transladado para Basílica de Santo António de Pádua, construída em sua memória logo após sua canonização 1.
Depois disso, quando aberto sua tumba, sua língua foi encontrada incorrupta, e o próprio São Boaventura, testificou o ato, dizendo que isso provava que suas pregações e suas palavras eram de fato inspiradas por Deus. Foi declarado doutor da Igreja pelo papa Pio XII em 16 de janeiro de 1946 e é celebrado em todo mundo no dia 13 de junho, que no Brasil sucede o dia dos Namorados, dia 12 de junho, que testifica ainda mais o epíteto de Santo Casamenteiro. Também é padroeiro de Pádua e também de Portugal e de milhares de cidades brasileiras.


Quando te sorriem prosperidade mundana e prazeres, não te deixes encantar; não te apegues a eles; brandamente entram em nós, mas quando os temos dentro de nós, nos mordem como serpentes” 4.

Devemos, analisando a vida de Santo António, compreender que toda a sua santidade foi fundamentada na Palavra de Deus e na evangelização, nos seus sermões e nas pregações que ele dava resplandecia ali a força e a inspiração do Espirito Santo que o próprio António tinha.


Notas

1 a.b.c - Santo António de Lisboa, Wikipédia, a enciclopédia livre.
2 a.b.c - Anthony of Padua, Wikipedia, the Free Encyclopedia.
3 a.b - www.paroquiasantanavinhedo.com, 13 de Junho: Conheça 21 milagres de Santo Antônio!, Vinhedo, SP.
4 a.b.c - Nossa Sagrada Família, 15 Pensamentos e Frases de Santo Antônio de Pádua, Blog.

Material para Download


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Beato Carlos da Áustria

O Caso de Henri Pranzini

As Carícias que “excitam”!

Padre Pichon