Beato Carlos da Áustria

“Foi no cenário de carnificina da Primeira Guerra Mundial que Carlos I foi elevado ao trono austríaco. Derrotado porém na guerra, esse chefe de Estado e pai de família católico foi, na vida, um modelo admirável de obediência à vontade de Deus 1.

Carlos Francisco nasceu em 17 de agosto de 1887 na cidade de Persenbeug-Gottsdorf, na Áustria, sendo filho mais velho do Arquiduque Oto Francisco e de sua esposa Maria Josefa da Saxónia, filha do Rei Jorge I. Carlos de fato não nascera para ser rei, sendo desde pequeno um grande devoto católico. Sendo criado em uma familia não muito cristã, com um pai adúltero e uma mãe afetivamente distante, o jovem Carlos recebeu uma educação católica fervorosa de forma dócil e de disciplina fácil e doce. Porém sobre a influência de seu tio Francisco Fernando, em determinado momento, quando ainda era solteiro, Carlos passou a questionar a educação que recebera e entregou-se, por alguns meses, a uma vida de prazeres e pecados. Mas depois se arrependeu e se casou em 21 de outubro de 1911 com a italiana Zita de Bourbon-Parma, Serva de Deus. Até aqui por esses fatos da sua juventude se observa a vida de um bom católico, mas a sua santidade se destaca em campos distintos a qual devemos imitar.

O seu tio-avô, Francisco José I, que pertencia a clássica Familia dos Habsburgo, foi Imperador da Áustria de 1848 a 1916. O herdeiro direto do trono era Rodolfo de Habsburgo, filho único de Francisco José. Apesar de Rodolfo pertencer a uma dinastia historicamente católica, ele possuia tendências fortemente revolucionárias e cheio de rebeldia. Em 30 de janeiro de 1889, Rodolfo é 
encontrado morto em sua casa de campo em Mayerling, perdendo o Imperador Francisco seu único herdeiro do trono, passando-o adiante ao seu sobrinho Francisco Fernando, que no entanto em uma visita em Sarajevo foi assassinado em 28 de junho de 1914.

E foi assim que Carlos se ascendeu ao torno austríaco no dia 21 de novembro de 1916 aos 29 anos de idade, mas foi justamente o assassinato do seu tio Francisco Fernando que infligiu o inicio da Primeira Guerra Mundial, isso porque o seu assassino, o estudante radical Gavrilo Princip era ligado a um grupo de terrorismo sérvio e diante dos sérvios negarem investigar a morte do herdeiro do trono, em 28 de julho de 1914, um mês após o atentado, o Império Austro-Húngaro declarou guerra contra a Sérvia, que foi apoiada pela Rússia e a Áustria sendo apoiada pela Alemanha, e desencadeando uma ligação de guerra e confronto entre as potências europeias, iniciando um Guerra Mundial com mais de 17 milhões de mortos.

Carlos ao se tornar rei queria trazer pacificação e fim da estrondosa Guerra, apesar de muitas vezes ser retratado como um Imperador inepto, inexpressivo e sem visão política, isso na visão católica é incorrespondente com a realidade, mostrando mais ainda os valores cristãos e as virtudes verdadeiramente infusas em Carlos, que não abandonou sua fé, em troca e um poder temporal e um reconhecimento político. De tal modo sua fé era tão corajosa e iluminada que os contemporâneos afirmavam que ter Carlos como Imperador Austríaco era como ter um papa no centro da Europa. 

No entanto o trono sofreu diversas tentativas de sabotagem, como em caricaturar sua posição como governante, sendo resultado das ligas anti-católicas que estavam presentes inclusive na Alemanha, que era sua nação fiel e aliada. O Império Austro-Húngaro foi assolado por agitação interna nos anos finais da guerra, com muita tensão entre os grupos étnicos. Como parte de seus Quatorze Pontos, o presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson, exigiu que o império desse autonomia e autodeterminação aos seus povos. Em resposta, Carlos concordou em reunir o Parlamento Imperial e permitiu a criação de uma confederação com cada grupo nacional a exercer seu autogoverno. No entanto, os grupos étnicos reagiram se tornando independentes do governo monárquico de Viena.

Quando na Guerra, a Alemanha decidiu atacar com submarinos todas as embarcações inglesas, inclusive navios civis, Carlos advertiu que aquilo poderia trazer consequências incontornáveis e com as quais os alemães não poderiam lidar, como a entrada dos Estados Unidos na guerra; Carlos foi ignorado, e, posteriormente, aquilo que ele havia advertido aconteceu de fato, mostrando seu verdadeiro controle sobre o reino. A Alemanha mais uma vez para combater a Rússia, planejou enviar os revolucionários comunistas Lenin e Trótski ao território russo, com o fito de derrubar o governo do czar; Carlos se opôs a esse plano, pelo fato de o comunismo ser totalmente contrário ao catolicismo, e porque essa ideologia poderia se voltar contra eles próprios no futuro; novamente, Carlos não foi ouvido, e a história atesta que ele tinha toda razão 1.

Por tantos conflitos, Carlos é pressionado a abdicar do trono, mas com grande coragem se nega, dizendo que não podia renunciar a missão que Deus tinha dado a ele. Sendo consequentemente  exilado com sua familia na Suiça, onde viveu precariamente na pobreza, sendo proibido de pisar novamente na Áustria e como resultado disso, sua nação, a Áustria deixaria de ser uma grande potência, e sendo passada pela Alemanha.

Mesmo exilado, Carlos tenta inutilmente duas vezes recuperar o trono austríaco, como obediência ao papa, tentando restaurar no Império a fé católica, sendo principalmente incentivado pelos Húngaros ou Legitimistas, depois sendo ameaçado de uma envasão a Hungria se Carlos continuasse tentando recuperar o poder do trono, e vendo toda propagação de guerra, Carlos desisti. Mais tarde, em 1921, o parlamento húngaro anulou formalmente a Pragmática Sanção, um ato que efetivamente destronou os Habsburgos. 

Após a segunda tentativa de restauração da monarquia na Hungria, ele e sua esposa foram capturados e enviados para a Ilha da Madeira, em Portugal, onde viveram uma vida pobre e precária, privados por um certo tempo até mesmo de verem seus oito filhos. Mas mesmo vivendo na pior, Carlos continuou vivo na fé e na esperança, encontrando ainda mais razão para estar mais perfeitamente unido e configurado a Paixão de Cristo, ou seja, o Cristo Salvador. Prova disso é que, ao chegar na Ilha da Madeira, sua primeira atitude foi solicitar ao bispo local que tivesse em sua casa uma capela com o Santíssimo Sacramento.
"Reconhecer, em tudo, a vontade de Deus e segui-la da maneira mais perfeita."
Mas o que configura a santidade de Carlos vai além desses fatos. Primeiro põe-se a sua virtude da paciência infusa e sua esperança de não se desesperar diante dos seus problemas e responsabilidades na sua vida terrena, mas de confiar extremamente em Deus e em Nossa Senhora, no qual ao se casar com Zita, eles gravaram uma mensagem especial em suas alianças de casamento, que dizia: “Á vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus”. Carlos além disso, em sua vida procurou sempre receber a “coroa imperecível” (2Tm 4, 8) da vida eterna, sem se preocupar com os caprichos mundanos e vaidades. Além disso seu segundo segredo de santidade era sua vida de oração recolhida e unida a Cristo e a sua Igreja.

Nesse processo de completa união a Deus, ao Cristo despojado e crucificado, Carlos via a beleza dos projetos e propósitos de Deus, como ele mesmo afirmou à sua esposa, ao final de sua vida: “Deus deu-me a graça de que, sobre a terra, não exista mais nada que eu não esteja pronto a sacrificar por seu amor, para o bem da Santa Igreja”.

Carlos teve oito filhos, ambos 5 homens e 3 mulheres, seu mais velho, de nome Oto, que depois se tornaria o Arquiduque da Áustria, depois sua filha Adelaide, Roberto e Félix e depois seu filho Carlos Luís, com suas duas últimas filhas, Carlota e Isabel da Áustria.

Carlos morreu no dia 1 de abril de 1922, na Ilha da Madeira em Portugal na pobreza, aos 34 anos, convalescente de pneumonia. Entregando-se como vítima, ele certamente purificou os pecados que havia cometido no passado, uma vez que viveu conscientemente os seus sofrimentos, oferecendo-os pela salvação das pessoas que compunham os povos que Deus lhe confiou. Seus restos ainda permanecem na ilha, na Igreja de Nossa Senhora do Monte, com a permissão dos seus herdeiros.

O papa João Paulo II declarou Carlos bem-aventurado em uma cerimônia de beatificação realizada no dia 3 de outubro de 2004. Na ocasião, declarou 2 :
“A tarefa decisiva do cristão consiste em buscar, reconhecer e seguir a vontade de Deus em todas as coisas. O estadista cristão, Carlos da Áustria, enfrentou este desafio todos os dias. Aos seus olhos, a guerra apareceu como "algo terrível". Em meio ao tumulto da Primeira Guerra Mundial, ele se esforçou para promover a iniciativa de paz do meu predecessor, Bento XV” 3.
Com seu exemplo eminente de santidade, morreu em odor constante com o perfume celestial da caridade e do amor, e hoje nos dá o exemplo de perseverança em meio a tantas violência e crueldades no mundo atual e que ele nos prepare para a Guerra contra a Igreja com sua esperança e amor.


Notas

1.a.b - Beato Carlos da Áustria, Pe. Paulo Ricardo, CNP.
2.- Carlos I da Áustria, Wikipédia, a enciclopédia livre.
3.-  www.vatican.va.com, Homily of John Paul II, Sunday, 3 October, 2004.

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