Divina Misericórdia

O Papa João Paulo II em 1993 beatificou e em 2000 canonizou sua conterrânea Santa Faustina Kowalska, uma santa religiosa que recebeu visões e revelações sobre a Divina Misericórdia e se tornou a secretária da Misericórdia Divina:
“És a secretária da Minha misericórdia.
Eu te escolhi para essa função nesta e na outra vida” (Diário, 1605).
Jesus na sua infinita providência escolhe Santa Faustina por secretária do seu amor e da sua Misericórdia, e a encarrega de passar adianta esta santa devoção e de trazer para o mundo inteiro os raios da sua infinita bondade e amor.
O Papa João Paulo II atendendo o apelo do próprio Jesus pelas palavras de Santa Faustina, institui o segundo domingo da Páscoa, tradicionalmente conhecido com Dominica in Albis, a festa da Divina Misericórdia, que o próprio Jesus no seu infinito amor revela o que seria o refúgio das pobres almas pecadoras.

Mas, o que é verdadeiramente a misericórdia de Deus?

O padre Reginald Garrigou-Lagrange, ao explicitar Maria como a Mãe da Misericórdia, o que a liga inefavelmente ao Sagrado Coração de Jesus, fonte primária de todas as graças e de toda a sua misericórdia, nos deixa claro que existe uma diferença distinguivel entre "a misericórdia, que é uma virtude da vontade, e a piedade sensível, que não passa de uma louvável inclinação da sensibilidade".
Esse último nos leva a piedade popular, a um certo grau de empatia em compreender e senti em nós mesmo os sofrimentos de outra pessoa, sendo esta de propriedade humana e não divina. Uma vez que Deus é um espírito puro. São Tomás de Aquino em sua suma teológica nos diz claramente: "não é próprio de Deus contristar-se com a miséria de outrem". Mas, é própria de Deus a misericórdia, que é fundada na vontade. Ao dirigir-se às criaturas, Ele sempre as ama misericordiosamente.

Quando olhamos para a realidade espiritual da Redenção, vemos na hora da paixão de Nosso Senhor seu coração ser aberto pela lança do soldado, que admirado ver brotar de lá, sangue e água manifestados pela grande violência que a lança atinge. Mas Jesus na sua paixão, quis derramar todo o seu Preciosíssimo Sangue para nos salvar, não poupou nem mesmo uma só gota, mostrando seu infinito amor que nos coloca debaixo de uma realidade de um Deus que nos amou até o fim, dando seu sangue e seu Sagrado Coração para nutrir as nossas almas, purificando os nossos pecados.
E é nessa entrega, que Jesus se doa inteiramente para nós, na cruz, e continua se doando todos os dias, manifestando sua intensa misericórdia.
“Ambos os raios jorraram das entranhas da Minha misericórdia, quando na Cruz, o Meu Coração agonizante foi aberto pela lança. Estes raios defendem as almas da ira do Meu Pai. Feliz aquele que viver à sua sombra, porque não será atingido pelo braço da justiça de Deus” (Diário, 299).
Visto que a Divina Misericórdia é eminentemente ligada a Paixão de Cristo, podemos concluir que Jesus nos amou e manifestou sua misericórdia mesmo antes de se revelar a Santa Faustina, pelo mistério da Cruz redentora, que nos salva. Faustina ao ver Jesus e a imagem da Misericórdia, ela o pergunta o que significa cada raio de luz, tanto o vermelho, quanto o pálido que saíam do seu coração, e Jesus a responde que o raio vermelho, simbolizava seu sangue redentor e purificador, que nos salva das garras do demônio e do pecado. E os raios pálidos ou brancos, simbolizava a água viva do Espírito Santo que nos justifica de todo pecado, o vermelho sendo a vida da alma e o branco sendo a purificação da alma.

Mas, pergunta-se, como é possível conciliar a misericórdia de Deus com a sua justiça? 
Garrigou-Lagrange, ao falar desses dois atributos divinos, escreve que, se a justiça é um "galho" da árvore do amor de Deus, esta árvore não é senão a sua misericórdia e a sua bondade, sempre desejosa de comunicar-se aos homens e "irradiar-se". Resumidamente a Justiça divina é sempre manifestada na vida do homem, como um sinal da sua misericórdia e de seu amor. Ainda que nesse vale de lágrimas, devemos confiar na misericórdia e no amor de Deus manifestado no seu filho Jesus, essa é a verdadeira mensagem da Misericórdia revelada a Santa Faustina, que a confiança é o vaso que colhe a misericórdia de Deus, e enquanto maior o vaso, ou seja, a confiança, maiores serão as graças.
É de certo que Deus nunca permitiria um mal se desse mal não pudesse tirar um bem ainda maior.

Devemos também estarmos consciente de que o perdão misericordioso de Jesus concedido aos pecadores não está “abaixo” da sua justiça, mas a completa. Em contrapartida pode-se deduzir que a Misericórdia é contraditória com a existência do inferno, mas é exatamente o contrário, Jesus se manifestou na mensagem da Misericórdia para salvar as almas desse lugar de eterna demanda e sofrimento, e apresenta sua misericórdia como a Última tábua da salvação:
 “Hoje estou enviando-te a toda a humanidade com a Minha misericórdia. Não quero castigar a sofrida humanidade, mas desejo curá-la estreitando-a ao Meu misericordioso Coração (...) Antes do dia da justiça estou enviando o dia da misericórdia” (Diário, 1588).
É evidente que Jesus quer curar o mundo e salvar os pecadores, e para isso se apresenta primeiro como o Rei misericordioso e redentor para depois manifestar sua justa sentença e vir ao mundo como o Justo Juiz. É pela existência do Inferno, que Jesus se revela para nós e esta disposto a nos perdoar e salvar antes que seja tarde demais, visto que o Inferno é uma decisão da própria alma, que vivendo longe de Deus no desespero e nos prazeres do mundo e do pecado, se afasta de Deus e no seu infinito remorso se precipita no Inferno. O remorso, longe de ser uma dor pela ofensa cometida contra Deus, é um "remordimento" de si mesmo, como um animal que se põe a lamber as próprias feridas. Sendo um ato completo de orgulho e rebelião contra Deus, levando a alma ao extremo desespero, a pensar de que tudo já esta perdido. Mas Jesus vem nos mostrar o contrário, que ainda existe esperança e sua misericórdia é muito maior do que nossos pecados e completa aquilo que ele já fez por nós na cruz.

Diz Nosso Senhor a Santa Faustina: “A falta de confiança das almas dilacera-me as entranhas. Dói-me ainda mais a desconfiança da alma escolhida. Apesar do meu amor inesgotável, não acreditam em mim, mesmo a minha morte não lhes é suficiente. Ai da alma que deles abusar!”. Por isso precisamos confiar sempre na misericórdia e no amor de Deus presente em nossa vida, capaz de nos purificar de toda injustiça.

Por isso, a festa da Divina Misericórdia e a devoção a Jesus misericordioso são uma forma de renovar a tradicional devoção ao Sagrado Coração de Jesus; de celebrar o coração humano de Cristo que amou a Deus infinitamente e fez-se vítima para salvar a humanidade.

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